domingo, 3 de janeiro de 2016

25. HNY2016


Após umas breves férias no Porto e arrabaldes, é tempo de voltar à labuta em Londres.
Volto no voo das 6.30 da Ryanair que tem um precinho jeitoso e ainda dá pra um gajo ir trabalhar de seguideira. Novas amizades feitas no avião... estou de volta e cheguei e disse... Toca a botar o fato e a gravata que há muito que fazer... O emigrante fugido de um país em crise tem mais é que trabalhar muito pra compensar o tempo que não trabalhou, uma vez que esteve de férias e férias são só pra países ricos. 
A cidade estava morta... Muitos dos Deli ou cafés estavam fechados, as ruas não estavam pejadas de gente com ou sem sapatos sinistros e as linhas de metro, muitas delas, estavam em obras. Surpreendentemente o meu calendário, para os próximos dias que se avizinhavam, estava a rebentar pelas costuras acabando até por resultar em overbooking... É certo que gosto que me queiram assim tanto mas aqui tratava-se apenas de trabalho... Vi de tudo um pouco... 3 irmãos dinamarqueses com corpos esculpidos por Da Vinci (na falta do meu conhecimento em escultores nórdicos), um celebrity entrepeneur que decidiu oferecer fatos a alguns dos seus colaboradores, um desgraçado que vivia numa zona manhosa, numa casa digna de um filme passado no Bronx onde o serial killer colecciona fotos de alvos a abater, um Sri Lankense com sobrenome português (pelos vistos é muito comum no Sri Lanka) que é designer de aeroportos... Sim existe gente no mundo que fez formação só pra planear aeroportos... Um puto posh armado aos cágados, um árabe que está a pensar casar lá pra setembro e portanto adiantou-se com a vestimenta... Enfim... Estes entre muitos outros formam um melting pot de gente não muito convencional para quem vive em Portugal, já que, bastam os chineses para serem criados mitos como o de que não há funerais chineses em Portugal porque eles fazem Chop Soy dos mortos ou até o mito do peixe que vem de Espanha ser seco... Como se o peixe que nada ali em Vigo fosse proibido de nadar até à Povoa do Varzim ou vice-versa... E por isso os Espanhóis são também já quase aliens...
Os dias foram passados a correr de um lado pro outro sem tempo sequer para organizar uma saída nessa extraordinária noite de Passagem de ano... Ficar em casa soava-me demasiadamente deprimente e portanto tinha de fazer qualquer coisa... Os posts de Miss simpatia a desejar paz no mundo no facebook estavam-me a deixar impaciente para que o ano acabasse e essa ocasião deveria ser celebrada. Assim que comecei a ver quais as possíveis festas onde podia fazer o countdown para a meia noite, rapidamente me apercebi que já tudo estava esgotado... Mesmo com preços proibitivos... Acontece que, em Londres, talvez por causa do frio, não se festeja na rua... Todos ou quase todos os bares, restaurantes e outros estabelecimentos comerciais fecham as portas abrindo apenas para quem comprar um bilhete antecipadamente planeando assim o local da auto destruição com álcool e drogas. Muita pesquisa mais tarde lá encontrei uma opção ainda válida... Horse Meat Disco no The Nest... Tudo indicava ser seguramente uma noite divertida no coração da zona mais cool de Londres, Dalston... Esta é uma festa que mistura gay Bears com música disco... À partida parece que a coisa não é miscível uma vez que os Bears são muito machões e não dançam de todo ou abanam-se apenas ligeiramente sem tshirt ao som de música techno de gosto duvidoso na esperança que alguém lhes vá fazer festinhas no pelo... Por uma razão que desconheço... Os Bears dançam disco... Mas não é um bear qualquer... É o bear cool...
Após muito correr a trabalhar e um repasto turco mais tarde... Festa!
Começo a ver as pessoas que iam para a mesma festa e nada se parecia com o expectável... Muitos casais heterossexuais na casa dos vintes... Muitos grupos de miúdas prestes a ficarem bebedas encostadas a valeta de perna aberta e muitos grupos de rapazes que se iam aproveitar da falta de lucidez dessas mesmas raparigas. Nada se assemelhava ao que seria expectável... O sítio era escuro que nem breu e custou-me umas boas horas para conseguir ver o que se passava lá dentro mas ainda assim fiquei sem perceber nada... Realmente os casais heterossexuais lá estavam e os rapazes a engatar as raparigas também... Mas de repente tudo mudava... Esses mesmos rapazes, não sei se seria pra variar, de repente era uns com os outros como os txinenses ( como diz a senhora do vídeo)... Seria o poder do Disco, seriam as drogas ou será a nova tendência ser-se polisexual? Será que me devo começar a sentir velho por não entender esta nova realidade? Alguém informe o da Câmara Pereira que já ninguém é gay por moda... Isso é super last season... Agora é-se polisexual que vai bem com tudo... Literalmente!
Passou-se assim mais uma ano repleto de novas experiências e muitas mais venham neste ano que se inicia... O que o futuro me reserva eu não sei mas prometo contar aqui tudo da melhor maneira possível... Como a graça possível...
São vidas... Velhas e novas... Evolutivas...

Beijos vários,
PM

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

24. Natal e essas cenas



Pois é... Estive hibernado no ante-Natal... O frio torna-me preguiçoso e no direito de o ser...
Um voo da Ryanair mais tarde... Chego ao Porto próximo da meia noite. O casal de namorados que vinha sentado ao meu lado vinha num excitex por estar a voltar à sua terra após umas breves férias em Londres... Achei no mínimo curioso... Então saíram há 2 dias daqui e tanta excitação porque? É impossível que sintam saudades de comer Francesinhas ou rissois... Do mar... Ou até mesmo da língua... Nem eu como emigrante senti toda essa emoção... Cheguei ao Porto pronto... Siga mamar uma Francesinha... Feito!
Mais uma vez tudo me parece desértico... Nem a suposta azáfama Natalina ou Natalícia faz parecer que está tudo ao rubro... As lojas pra pouparem na conta da luz... Estão a média luz...  As ruas a mesma coisa... 
Aquela ideia das famílias felizes ás compras na baixa com a musiquinha a tocar e a senhora das castanhas a fazer fumo... So last season... O que ta a dar são caras sofridas, má disposição e falta de obrigados ou desculpe... Eu sei que em Londres sempre que dizem sorry é thanks a toda a hora ou minuto é falso... Mas soa bem... Custa muito sempre que perguntam se quero factura com número de contribuinte dizer um não obrigado ou um sim por favor? Um sorriso ao de leve que seja? Um não menos abrutalhado?
Estava eu numa loja da baixa onde não estava ninguém para pagar e 2 caixas quando uma senhora muito enervada se vira para o funcionário e diz: eu estava primeiro! Acho bem que me atenda primeiro! Pois minha senhora... Tome uns victan e faça sexo... Acredite... Faz lindamente a pele encarquilhada por uma vida sofrida de uma luta sem causa.
Viver fora de Portugal fez-me perceber que todas as coisas que me enervavam ou preocupavam não têm importância alguma... Estou em modo zen... Que importância tem se não conseguimos comprar todos os presentes que devíamos? Que importância tem se não temos 500 camisas e 300 calças para podermos escolher o outfit certo? Um fashion faux pas aqui e ali ou uma calça de fato de treino nunca matou ninguém... A casa não está perfeita ou a árvore de natal não tem os enfeites da nova saison? So fucking what? Não quero é passar frio, estar sozinho e triste ou não poder divertir-me com as letras todas quando me apetece.
Quando era miúdo o Natal tinha graça. Vinham os tios de França, reuniu-se a família toda e fazia-se muito barulho...  As tias e mãe preocupavam-se em ter o bacalhau no ponto e as couves cozidas enquanto os primos e irmão não fazíamos nenhum ou estávamos com a malta até próximo da hora de jantar... Os presentes nunca foram uma preocupação... Aquela avalanche de embrulhos nunca aconteceu na minha família... Não estou a fazer a linha pobrezinho... Simplesmente não acontecia... E não me fazia diferença alguma... Para mim o Natal era a energia positiva e o bacalhau (já pareço a Simara  com as suas pedras enegizantes e místicas).
Achei que o Natal era uma coisa chata é pouco cool... A malta gosta de dizer que odeia o Natal porque é muito mainstream... Batatas cozidas é odiável e a cena agora é o peru como nos filmes... Se me davam peru pra comer no Natal eu chorava toda a noite... Que raio de Natal não tem o bacalhau cozidos com todos? Não é o meu com toda a certeza! 
No ano passado decidi passar o Natal em Londres... Achei que comer umas batatas com bacalhau não tinha importância alguma mas enganei-me. Passei em casa de um amigo com os pais que o foram visitar... Os voos pra vir a Portugal estavam muito caros. Fui belíssimamente tratado mas não era a minha família. Não tinha a minha mãe a tirar as batatas da travessa com o seu garfo e eu a berrar-lhe que não pode, não tinha a minha Francisca a pedir comida e a ladrar, não tinha o meu irmão a dizer piadas parvas e cheio de pressa pra sair de casa... Enfim... Não era a minha tribo.
Este ano decidi vir a casa... Já revi amigos, já comi de tudo um pouco até me dar umas dores de estômago que me levaram a trazer um carregamento de medicamentos da farmácia e até fui ver um jogo de futebol ao Dragão... Felizmente não houve foras de jogo pois irritam-me uma vez que não os entendo... 
Amanhã vou ver amigos e família e até o sítio onde cresci que odeio... Amanhã vou comer bacalhau, aletria e sopas secas e abrir uns presentes manhosos... Amanhã é Natal! 
Que todos tenham um feliz Natal à sua maneira e parem de dizer que odeiam o Natal pois o Natal não é mais que uma data de ver, rever, comer e beber...

São vidas... Natalinas ou Natalícias...

Beijos vários,
PM

domingo, 29 de novembro de 2015

23. Medos vários


Tenho medo... Medos... Vários...
Tenho até ás vezes medo de ter medo mas mais vezes tenho medo de não ter medo...
A introspecção semanal levou-me a concluir que sou um tipo medroso... Eu posso dizer que tenho medo de quase tudo... Os medos mais óbvios são aqueles físicos como desportos radicais onde sentes adrenalina... Odeio adrenalina... Porque raio havia eu de me colocar numa situação de risco só para sentir a tal da adrenalina?... Isso até há em comprimidos aposto... Prefiro mil vezes tomar um comprimido do que me atirar abaixo de uma ponte... Mas adiante... Cobras também me dão medo... Eu diria que é um medo que 90% da população mundial deve ter por isso não é assim muito interessante debater... Vamos ao que interessa...
Tenho medo de acabar a falar sozinho como vejo tanta gente nesta cidade a fazer... Bem ou mal vestidos, novos ou velhos... É muita gente a falar sozinha... Acho de uma tristeza profunda... Dá-me medo... Qual o motivo? Talvez solidão... Talvez princípio de uma loucura que se avizinha... Genialidade não creio... Não quero... 
Medo de ser ridicularizado... Mas só por alguém que admiro... E não admiro assim tão facilmente... Às vezes admiro o que menos importância tem... Talvez devesse admirar ainda menos... Mas tenho medo... Não quero que se riam de mim mas antes comigo...
Tenho medo de deixar de ser engraçado... Cada um joga com armas que tem... Não sou bonito, não tenho músculos, não sou moreno e já estou a ficar careca no cocuruto... Tenho de ser engraçado... Não é um hobbie... É uma necessidade... Um gajo feio sem personalidade ou graça tá fodido... Resta-lhe o que? Só se for dinheiro... Ou ilusão... 
Tenho medo de não voltar a amar... Mas tenho o tenho de amar... Ou talvez de me apaixonar... Amar tá tudo bem... É um sentimento cândido... Higienico... Mas paixão não... É aquela adrenalina que não se arranja em comprimidos mas que também pode ser a debilidade que só com comprimidos te safas... 
Tenho medo de não ter amigos... Sendo um dos meus medos e ódios a solidão... Só posso querer estar rodeado de amigos... Mas não é daqueles amigos que se estão a borrifar pra ti ou te sugam a energia e o que tens a dar... Os amigos que te fazem sentir em casa... Os amigos que te dão o ombro... Os amigos  amigos...
Tenho medo que não gostem de mim... Não consigo lidar com a rejeição... Isto de se ser emancipado e urbano é tudo muito bonito mas ninguém vive bem só para si mesmo... Recuso-me a acreditar... Odeio, não só que me odeiem, mas que me ignorem...odeio ser indiferente... Talvez a pior rejeição seja a indiferença...
Tenho medo de falhar... Reconhecer a minha incompetência... Não tenho de ser "o mais" mas tenho de estar acima da média... A mediocridade deixo para os outros... Assusta... Talvez seja isso que nos faz crescer e criar... Mas não consigo não calcular... 
Tenho medo de envelhecer e tenho medo de morrer... Não se prende com o facto de deixar de me parecer com o Brad Pitt... Não corro esse risco... Mas tornar-me inútil... Um impecilho... Isso na velhice... A morte é o fim... Tenho medo do fim...
Tenho medo de ter tantos medos... Talvez me faça perder tempo... Talvez me faça não aproveitar... Tenho medo de estar a desperdiçar... Quero petiscar sem medo mas não quero apostar em cavalos mancos... 
Acho que no fundo do que tenho mais medo é de ser um humano... Temos muitas falhas... Demasiadas... 
Assim concluo a blogada desta semana com o medo de que se aborreçam antes de chegarem a meio...

São vidas... Medrosas e às vezes merdosas.

Beijos vários,
PM

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

22. Individualidade ou individualismo


Foi uma semana de muita introspecção... Numa cidade como Londres, onde estas rodeado de gente mas na realidade sempre sozinho, ou já és individualista ou tens de passar a ser... Ninguém tem tempo ou paciência para ninguém.  
Comecei por me sentir sempre sozinho e a questionar-me porque é que eu tenho sempre disponibilidade para tudo e todos e o resto do mundo tem sempre planos e afazeres... Serei o único ser neste sítio que não precisa de um PA para lhe organizar a vida? O telefone ajuda-me bastante a programar os dias... Nunca antes tinha tido necessidade de ter agenda onde todos os acontecimentos vão parar lá de forma a organizar-me mas... Sempre busy??? Really? 
Toda a gente corre o tempo todo... Nem que seja pra ir tomar café com um amigo... Estava na agenda: 17.45 - Meet Max for a coffee at N1 4UD Danish Cafe. Acredito que muitas pessoas até coloquem os tópicos de conversa a ter e o tempo dispensado para cada tópico... Eu não consigo ser assim!
Organizo o meu tempo de forma a ter espaço para situações como encontrar-me com amigos, ir ao cinema, ir jantar fora, ir ao supermercado e até fazer máquinas de brancos, cores e pretos... Onde é que as outras pessoas gastam o tempo que estão sempre ocupadíssimas? Será a minha vida assim tão vazia que nem preenche o suficiente do meu dia a dia de forma a parecer mais interessante? Será que gosto de a preencher demasiado de forma a poder não sentir o vazio que é indiferente ou necessário aos outros?
Não gosto de estar sozinho! Admito...
Ao que parece isto é revelador de fraqueza... Mas eu não gosto! 
Testei-me de várias formas... Aparentemente outro sinal de fraqueza é o Facebook... Ou porque se posta, ou porque se comenta, ou porque o raio que parta... O Facebook deveria ser-nos indiferente e ser usado apenas 30 segundos ao dia no máximo de forma a parecer que somos a Rainha de Inglaterra cheia de interesses e compromissos... Vai daí... O Facebook estava-me a chatear com tanta gente desse calibre e a fazer-me sentir cada vez menos interessante... Anúncio ao mundo que ia terminar com a minha conta... Um disparate pegado... Teorias sobre este tópico mais à frente.
Na sexta feira passada tive o dia de folga e desafiei-me a mim próprio a arrepiar caminho e ir fazer turismo a Oxford... Uma espécie de Coimbra mas mais famosa e muito mais fria...
Meto-me num comboio e lá vou eu a sentir-me todo confiante... Bota phones nos ouvidos, uma musiquinha gostosa e aprecio a vista durante o percurso... Uma horinha a partir de Paddington e chego a Oxford... E agora?... O único plano era sentir-me confortável a fazer turismo sozinho... Pra onde ia? Que havia de visitar? Comentava as criaturas absurdas ou engraçadas com quem? A quem dizia que aquele gajo era giro ou que precisava de um corte de cabelo?... Tentei manter um espírito positivo e seguir as setas do centro... Havia pensado antes que toda esta experiência se poderia tornar mais fácil e interessante se tivesse uma tarefa... Decidi fazer um vídeo,a partilhar mais tarde no Facebook, de forma a que toda a gente visse o interessante que eu sou... Viajo sozinho e divirto-me horrores... Visitei imensas coisas, parei para me deslumbrar com a vista, fui ao pub mais antigo e típico da célebre localidade... Enfim... Turismo... Mas não estava lá ninguém para partilhar tudo isto comigo... Precisava de comunicar... Tanto que até perguntei a uma senhora a razão de colocarem os talheres ao contrário na sala de jantar famosa no Harry Potter... A mulher olhou pra mim com um ar incrédulo e respondeu... Mas estão colocados da maneira normal... End of conversation!
Eu já não sabia se estava a enlouquecer ou se em Inglaterra as pessoas comem com o garfo na mão direita mas pela via das dúvidas tirei fotos de forma a confirmar mais tarde... Talvez usem os talheres ao contrário...
Regressado dessa... Não bem bela mas... Notável vá... Localidade, uma vez que ainda era cedo pra me enfiar no meu muquifo a uma sexta-feira, resolvi ir ao pub do costume no Soho... Não estava lá ninguém que eu conhecesse ou quisesse conhecer... Foi o tempo de beber um gin e por-me a caminho de casa para postar o vídeo e sentir-me confortável na companhia do meu Facebook.
Cheguei à conclusão que me é indiferente não o Facebook mas sim o que possam pensar sobre o uso dele... O que retiro dali é companhia e conforto... Podia arranjar um namorado... Podia... Podia ler um livro... Podia... Podia tricotar um cachecol pra este inverno rigoroso... Mas pra já é assim que faz sentido pra mim... É o auge da minha individualidade a caminhar pro individualismo a que esta cidade obriga.
Se é que posso concluir alguma coisa desta última semana é que não gosto de estar sozinho, não sei ser individualista mas nunca vou perder a minha individualidade... Tenho muito pra dizer ao mundo!

São vidas... Solitárias na grande metrópole.

Beijos vários,
PM

domingo, 15 de novembro de 2015

21. Ser-se Gay...


35 anos e meio a ser-se gay devia dar direito pelo menos a estar habilitado a um magnífico automóvel sem ter de ligar o 760 300 300... É das coisas mais difíceis que há...
Não sou aquele gay dramático-perseguido pelo mundo nem nunca me senti com medo ou vergonha de ser o que quer que seja mas nunca ninguém me deu um manual de instruções que me ensinasse tudo aquilo que precisava de saber com ferramentas incluídas pra montar... A vida. Imaginem o que é o móvel mais elaborado do IKEA sem instruções de montagem e a faltar as chaves de fendas (ou lá o que é... Sou gay não percebo de bricolage).
Tive as minhas primeiras experiências bem novinho... Não tinha ainda 10... Obviamente que não sabia o que ali se passava... Só sabia que gostava... E gostava naturalmente... Nunca me questionei porque não gostava de meninas... Não... Gostava de rapazes pronto... E dos giros... 
Não vou explorar o tema infância porque não é assim tão interessante e implica terceiros, quartos, quintos e etc por aí fora que aparentemente só queriam experimentar... Continuamente mas experimentar.
Ter nascido e vivido até aos 19 anos num meio industrio-rural (tipo Trofa mas sem aquele povo absurdo) podia ter-me conduzido ao título de The only gay in the village... Mas não... Pelo menos nunca senti nenhum comportamento ofensivo... Obviamente que as pessoas comentavam e os heteros que experimentavam continuamente vangloriavam-se do uso dado ao não hetero... Enfim... Nunca tive a necessidade de me insurgir... No colégio era querido de toda a gente, era popular, tive as minhas paixonetas... Tudo aquilo que qualquer pessoa, gay ou não, deve ter... E eu tinha 2 handicaps... Era gay e gordinho... O tão popular chubby... Talvez tenha tido sorte!
Os anos foram-se passando e com 18 anos fui pela primeira vez a uma discoteca gay... Moinho de Vento... Era a primeira vez que via homens que gostavam de homens a fazerem-no abertamente... Ou pelos menos abertamente naquele sítio fechado.
Porto...1998... Inverno... Uma ruela escura sem grande movimento escondia uma discoteca muito pequena onde para entrar tinha de se tocar à campainha. Tudo isto já adivinhava um ambiente ao qual eu não estava habituado... Era o Bas Fond gay da pré democratização gay pelo menos na cidade do Porto. Pouco tempo depois de ter entrado, um homem mais velho (com a minha idade atual) fixava-me com um olhar devorador com se eu fosse um leitão da Bairrada acabado de sair do espeto... Senti-me desejado pela primeira vez... Sim porque das outras vezes eles só queriam experimentar... Continuamente. Ele era bonito, atraente, educado e eu cai... Cai e fiquei caído vários anos... Até ele se casar e ter um filho... A história repetia-se.
Onde está o capítulo do manual de instruções que te explica que na comunidade gay é suposto teres atração e sexo por um homem mas nunca te apaixonares? Sim... Porque 35 anos e meio depois nada mudou... É-te dito que és uma princesa se gostares de alguém... É suposto só usares... E muitos... Se possível ao mesmo tempo até.
Os anos passaram e alguns relacionamentos falhados mais tarde aventurei-me numa incursão de macho gay... Uso fortuito de gajo jeitoso a repetir se fosse gostoso mas pondo de parte qualquer tipo de emoção... Durou pouco tempo a atitude... Ao primeiro beijo já estava atordoado e ao fim da noite já dava por mim a procurar no manual: "Como eliminar uma possível paixão do corpo sendo que tem menos de 24h?" 
Onde estava o manual? Quem é que eu devia processar pela falta de manual? Alguém devia ser responsável por isso!!!
Foram 7 anos de uma bela relação com altos e baixos que acabou comigo a fazer de rena tão grandes eram os cornos... Que fazer? (Como diz a senhora que encontra um morto a boiar na levada e pensa que é um porco)
Entrar em modo macho gay novamente e sacar o número máximo possível e impossível de gajos... Mais uma vez durou pouco... Desta vez não porque me apaixonei mas porque não conseguia sentir nada senão aborrecimento... 
Capitulo: "Como não sentir um vazio deprimente após ter sexo com um one night stand?"
Eu tenho a certeza que andam a esconder o manual de mim... Eu olho à minha volta e a malta vive nesse esquema há anos e são felizes e contentes. Eu estou a exigir muito ou a ser um mau gay? Alguém me mostre o caminho da luz!!! Ou trevas!!!
Mudo-me pra Londres com a certeza que aqui tudo será mais fácil pois é uma cidade muito à frente onde se tropeça na densidade gaysal por metro quadrado. Errado!!! Piorou!... Muito!
É verdade que a quantidade de gays por metro quadrado é comparável à densidade de políticos corruptos na Assembleia da República em Portugal mas a oferta é muita, a velocidade e ritmo de tudo é gigante e a toleria é maior... Fazer sexo com um estranho mas sem drogas equipara-se a uma freira carmelita a fazer biscoitos, ter uma relação... só aberta, paixão... é pra gente maluca e amigos... Quem?... Ami who??? No hablo... 
Em cima de tudo isto se não pertenceres a uma grupeta... Já foste! És Twink? És hunk? És bear? Que tipo de bear? Muscle bear? Otter? Chaser? Para chubby bear carregue na tecla 4 e oiça as instruções calmamente... E vá tirando notas.
Não dá só pra gostar de homens? Não... Demasiadamente fácil.
Ah! Não posso terminar esta blogada sem antes perguntar: Que tendência é esta tão em voga do gay que dá tira? Que quer e não quer? Que vem e foge? 
Onde está o manual???... Pelo menos umas FAQ's! Qualquer coisa!

Sabeis que mais?

São vidas... Sem explicação!

Beijos vários,
PM

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

20. A minha nova realidade


Tudo Isto parece ter começado com um não começo e vários fins... 
Sempre ouvi dizer que a vida dá muitas voltas... Mas que querem dizer com isso? Alguém pensa no que está a dizer quando o diz ou simplesmente sai pela boca fora à velocidade de um perdigoto numa noite de bebedeira? Que voltas são essas? 
A verdade é que a minha começou a rodar à velocidade de centrífugação assim que terminei a minha perfeita vida a 2. Foi um belíssimo relacionamento que nasceu de uma casualidade literal e se prolongou por 7 anos.... Assim que foi dado o primeiro beijo soube que tava tudo fodido... Tudo acontecia na perfeição com a exceção de uma família, não sei se conservadora ou só perturbada, que me perseguia com o intuito de me liquidar pondo termo... A tudo... Detalhes...
Era a casa com a cor perfeita nas paredes, o móvel escolhido para materializar a visão decorativa, a viagem romântica ao destino desde há muito desejado, o carro rápido de design italiano, o restaurante com comida em cama de regada a redução de, a cadela mais palhaça e mais popular do seu  bairro... O casal maravilha do prédio...!
Planos imensos a fundo perdido com visão a longo prazo... 
Como que numa forma de aviso da crise económica em Portugal, primeiro veio o par de chifres... Fui trocado!
Foi uma volta de tal forma brusca que me deixou ourado dourado (como diz a senhora dos apanhados da RTP) pra muito dificilmente me recompor... Não fosse ter sido trocado por alguém da Trofa, terra esta que já há muito me provocava ataques de pânico controlável apenas com uma overdose de Victans. 
Não contente, o mundo, com esta crise pessoal... Vem a crise economica... Fui declarado muito caro para a empresa onde estava... Uma empresa absurda onde o nível de literacia se encontrava em risco de ameaça à saúde pública... O Tone despediu-me!
Bom... Que mais poderia acontecer?... Eu nem precisava puxar o drama... Tava instalada a grande depressao... Qual anos 20 nos EUA qual que!? Shakespeariano era o meu nome do meio tamanha era a minha tragedia...  Vivi o drama vários anos até decidir emigrar a fazer a linha Linda de Suza mas com mala Samsonite... 
Londres era a terra prometida... O oásis no deserto... Afinal era só uma miragem!
Não estava a ser fácil arranjar trabalho pois ora era muito qualificado ora era emigrante..., não me identificava com este povo, não tinha casa, não tinha família ou conhecidos... Estava pior que a Floribela... Ela não tinha nada mas tinha tudo... Eu só tinha nada.
Lá apareceu um trabalho... Nem tudo estava perdido... Há motivo pra celebrar!... Nem vou desenvolver a ideia... A empresa fechou passado 1 mês e não me pagaram... Voltei a ser enrabado (o povo diz assim...)! Tentei, tentei, tentei... Novo emprego! Agora sim... Este vai ser a sério... E foi! 
Agora era a vez de me dar bem nos amores (pensava eu...). Era um direito que me assistia... 
Certa noite lá fui bailar à mítica noite Horse meat Disco, desse estabelecimento de diversão noturna chamado Eagle London... 
Unts, unts, unts... Double gin... Unts, unts, unts, G&T double... Lá está uma criatura de cabelo cor de laranja quase fluorescente a olhar pra mim fixamente... Maldita a hora que achei tudo aquilo exótico e interessante... Meses depois estava enfiado em Holand Park a viver junto... O chamado... Em pecado... Se me tinha emborrachado até cair naquela noite em que conheci a criatura, mas bebedeira tipo queima das fitas mesmo... Assim daquelas de ir parar ao hospital... é que eu era fino...
Ainda eu achava que os Escoceses seriam, ao contrário dos Ingleses, sãozinhos da cabeça... Enganei-me! 
A criatura revelou-se, não bipolar, não tripular, mas sim... Multipolar!!! Mais uma vez corria risco de vida... (Já sei...drama... Mas deixem-me ser dramático à minha maneira).
Meses depois... E drama de procura de casa ultrapassado... Tenho a minha nova realidade!
A minha micro casa é do mais amorosa que há... Com o dedo grande do pé chego a todo lado... A decoração prima pelo minimalismo sueco (IKEA)... É boa de se limpar e é minha... Só minha!
O meu bairro é o exemplo puro do tão famoso Melting Pot Londrino... Ele há de tudo... É um micro mundo com semelhanças a uma arca de Noé humana com um bocadinho de tudo... E eu adoro... Adoro tudo! 
Já não sei se a vida ideal perfeita de outrora seria a vida perfeita de agora. Venham os Árabes, os Italianos, os Franceses, Espanhóis ou Portugueses. Agora é só pra mim. É hora de viver não em função de um sonho mas sim de uma nova realidade... O que vivi não volta mas ainda há muito pra viver...
Sabeis que mais?
São vidas... Às voltas!

Beijos vários,
PM


segunda-feira, 2 de novembro de 2015

19. Halloween


Estranhamente hoje estou positivo e bem disposto...
Tudo começou na sexta-feira à noite... Trabalhei até tarde pois tinha de aturar um cliente Japonês que anda a ver se põe molho de soja no meu sushi... Tou fora! Seriam umas 8pm quando me dirigi ao Soho ainda em modo Lord pois ia com a roupa do trabalho que me confere um ar de realeza... Talvez não da casa de Windsor mas realeza. 
Como habitualmente fui tomar o drink básico ao pub do costume e já o Halloween pairava no ar... O que a malta quer é festa! Pints e Gins passavam à velocidade da luz e os Ingleses passam de anti sociais a melhores amigos com o handicapto de que não sabem onde parar... Mãozinhas marotas, gritos, convites e propostas inadequadas... Enfim... Um pouco de tudo o que é inconveniente a não ser para o ego... Como é bom sentirmo-nos com ele bem inchado... O ego.
Foi um fim‑de‑semana multicultural ao nível das Nações Unidas... Ele é italia, ele é Arabia, ele é Barhein, ele é França, ele é Escócia, ele é Oman... Todos a darem o seu melhor para a conquista de sexta à noite... Um Francês que não é de todo gay mas gosta de variar, um Escocês que gentilmente refere que seria muito agradável ter sexo comigo, Árabes vários a exibirem o petróleo... You name it and bring it on!
Eis que cansei de ser sexy e estava na hora de descansar pois sábado era a grande noite de Halloween e já não tenho idade pra me destruir com duas de seguida...
Sábado senti que devia fazer algo cultural... Acordei e rumei à Saatchi para ver a exposição da Chanel... Assim que me aproximei do local apercebi-me que só o poderia fazer na próxima encarnação tal era a fila para entrar... Terá baixado um espírito cultural nas várias zonas de Londres ou terá sido algo que o Boris mandou botar na água da companhia? Mais depressa comprava um tailleur, que vai bem em quase todas as ocasiões da vida, do que entrava na exposição... Siga comprar uns adereços para a noite! As lojas rebentavam pelas costuras... um frenesim louco com perucas, maquilhagem, sangue, roupas... Lá encontrei uma peruca a um precinho bom... Era o Elvis!
Após uma descansadela... Soho outra vez! Apanhei o metrô em Holland Park já em modo Elvis... Até aqui nem comprar alfaces, ao Continente, gostava de ir sozinho e agora vou de Elvis no metro como se estivesse no meu melhor... É isto que Londres faz as pessoas... Torna o indivíduo mais individual para o bem e para o mal... Mas adiante que hoje não estou para análises... Hoje estou na linha: Querido diário...
Chegado ao Soho o comitê das Nações Unidas estava mais calmo pois o grau de álcool no sangue ainda não abundava e talvez eu de rockabilly não seja tão apelativo. Drink para aqui e para ali com a malta e estava na hora de ir pra Vauxhall... RVT... Esse mítico estabelecimento onde até a Princesa Diana foi disfarçada de Drag Queen com o Freddie Mercury. Passei de rockabilly a turista no Hawai e dancei como se não houvesse amanhã. O Hawai fica-me melhor e por isso o interesse subiu e Itália preparava-se pra marcar golo mas a Arabia virou o jogo... Priuuuuu!!! Acabou o tempo! Venha o Uber para ir a esse local hediondo que é o XXL. Surpreendentemente estava divertido... Obviamente com os suspeitos do costumes e as suas drogas e sexo, muito e não pouco casual, à mistura... Mas divertido. Eu estava cheio de energia e dancei horrores (encaixa no tema Halloween) até aquilo fechar... Foi uma experiência vê-los a sair... Toca tudo a vestir-se que lá fora tá frio!
Tanta energia gasta tinha de comer... Eram 7.30am e estava no tão tradicional McDonalds a comer aqueles tão típicos pequenos almoços que só embriagado ou com uma grande bebedeira se conseguem comer... Porém tinha toda uma vista... Era uma manhã de nevoeiro que encobria o Big Ben do outro lado do rio... Enquanto fumava o meu cigarro pós pequeno almoço, o nevoeiro ia deixando ver o tão famoso ícone Londrino e a paisagem desfocada voltava à normalidade... Tudo isto acompanhado com side dish Árabe. Bla bla bla... Apanhei o metro e estava outra vez em Holland Park.
Domingo... Sim é dia do Senhor!... Mas este Domingo era dia da senhora... Kylie Minogue foi acender as luzes de Natal de Oxford St. A excitação era imensa... A realidade era outra... Meia dúzia de lampaneiros a cantar musicas pop... Ninguém os conhece a não ser no UK... Lalalalalalala... Lá vem a Kylie carrega no botão, as luzes acendem-se e já está! Natal!
Em modo de conclusão... Acho que já me sinto mais integrado e tive um belo fim‑de‑semana.

Olha... São bidas... Vividas!

Beijos vários,
PM